domingo, 29 de agosto de 2010

Baú de quê? Ah, Baudrillard! (Lê-se Boudriá)

Uma das coisas que tem me incomodado na blogosfera de moda, e isso já faz algum tempo, é a quantidade de textos e imagens repetitivas e auto-referentes.

Os textos são sempre muito ruins. Péssimo uso, não só da lingua mas também da coerência, da lógica, do público expectador. Fazem públicos uma série de cenas e comentários privados irrelevantes, que não são do interesse comum e portanto, não tem utilidade nenhuma. Ou tem: perpetuar um reinado de súditos consumistas. 

Como contribuir para que este universo- de moda e de blogs- ao qual estamos diretamente relacionadas respire um pouco de ar puro e insira novos dados em seu conteúdo?

Pensei que nos beneficiaríamos com uma pincelada de Filosofia sobre o assunto. Calma,  continue lendo. 

Há um filósofo francês que é nosso contemporâneo e que se chama Jean Baudrillard. Pouca gente sabe, mas suas idéias inspiraram o filme "Matrix".  Esse velhinho fofinho  e simpático era um soco no estômago de muita gente. Ele morreu em 2007 e  já se intrigava, muito antes de sequer sonharmos com esta discussão,  com o investimento das pessoas sobre  aparência e tudo que tange a imagem: mídias, moda, fotos, uma realidade construída  virtualmente (hiper-realidade).  Tudo isso em detrimento do conteúdo, das palavras, do significado ( o que não é necessariamente ruim, mas é do interesse capitalista). Duas livres interpretações e só, pode ser?


Em Sociedade de Consumo  ele diz que  "não compramos objetos para possuí-los e sim para destruí-los. A cada nova compra já estamos pensando na próxima. A efemeridade da moda acaba funcionando como antídoto para curar a ansiedade e saciar em pequenas porções a sede de emoções. A cada semana, uma nova coleção na vitrine, a cada dia um novo capítulo na novela das oito, a cada seis meses a nova versão do carro do ano, um novo restaurante imperdível é inaugurado. Somos todos, então,  fantoches no “teatro” do consumo. O que quer dizer que os sujeitos não têm mais a preocupação, ao consumir, em buscarem objetos duráveis e que permitam a eles identificarem-se em um conjunto homogêneo de outros sujeitos, como o era na época da estética da estabilidade pregada pelo fordismo, mas, diferentemente disso, o que desperta a atenção dos consumidores são objetos fugazes e que permitam que os mesmos se distingam em um determinado meio social."
Em troca semiótica e morte ele conta que  a veneração do passado que vemos na Moda " está envolta na ambigüidade do simulacro. Ao ressuscitar o passado, a moda o exclui." A moda é sempre retrô, mas com base na abolição do passado: ressuscitamos frivolidades e assim nos eximimos de pensar sobre a História por trás dela.  "A moda é a preeminência do trabalho morto dos signos (imagens) sobre a significação (conteúdo) (...) A moda assume diante da funcionalidade econômica o aspecto de festa e de gratuidade. Exerce uma fascínio que advém dos aspectos de inutilidade e de arbitrariedade que lhes são própriossistema da moda é paradoxal e enquanto código absoluto ela está acima de qualquer valor. A imoralidade da moda torna-a impenetrável à racionalidade revolucionária."
Não sei se vocês me seguiram, mas Baudrillard, ao contrário da idéia que temos de que a moda é expressão pessoal , interpreta a moda como impeditiva da expressão individual, já que ela é manipulada.  A moda, para o autor, significa controle capitalista sobre as formas de desejo: ela diz como devemos parecer e  determina o que devemos sonhar. Mas a intenção aqui não é concluir nada e nem "tacar pedra na Geni" já que a gente ama Moda ♥ .

O negócio aqui é só pensar, já é um fim em si mesmo.

Eu  escutei os longos suspiros e eu sei, eu sei que Filosofia assusta, sempre parece muito distante e impenetrável. E quanto mais vamos nos empobrecendo culturalmente por blogs e programas de TV  que se repetem  neste reinado da imagem vazia ( estes sim, cada vez mais "herméticos" na sua capacidade de criar variações sobre o mesmo tema), mais difícil a Filosofia ou qualquer coisa que saia deste ciclo parecerá.  

Talvez essa idéia de que filosofar é chato e difícil seja mais uma maneira interessante de criar consumidores.  Mais "Matrix", impossível.




(Conteúdo protegido sob licença de direitos autorais)

10 comentários:

Dáfni disse...

Adorei o post, Maura! Principalmente o final: "Mais Matrix, impossível". Foi muito bem colocada esta questão da individualidade e da moda, e é algo que as pessoas não se dão conta e nem querem pensar sobre.

Beijos

lu disse...

Achei fantástico vc colocar esse assunto para discussão! É claro que amamos moda, do contrário não estaríamos "ligadas" nestes blogs, mas acho muito interessante pensarmos a respeito de forma mais imparcial, analisando o que existe por trás de tudo isso! Está de parabéns!!!! Um pouco de filosofia sempre é bom! bjos

Aninha disse...

Uma discussão bem legal para nós que somos viciadas na tal moda.
Acho muito legal nos vestirmos bem, acho que traz uma auto confiança e, com um toque pessoal, pode sim refletir a nossa individualidade.
O que não pode acontecer é pensar SÓ em moda, é se importar SÓ com o exterior...
Boa discussão!

Beijos!!

Roberta disse...

Bem, é fato que nosso mundo gira em torno do consumismo.

No caso do mundo da moda, por que será que de tempo em tempo sao criadas novas colecoes, novas tendencias, etc, etc?
Simples: pois eles tem que nos fazer acreditar de que precisamos estar sempre mudando e seguindo o que eles querem, pois senao nao fariam dinheiro.
Entao, o trabalho deles é nos fazer acreditar que precisamos do que eles nos oferecem.
Mas isso só nao no mundo da moda, mas em todos outros setores.
Enquanto isso, estamos destruindo nosso planeta, os recursos naturais.


Acho muito interessante o mundo dos brechós e prefiro 1.000 comprar algo usado do que algo novo(em boas condicoes claro).

Foi um assunto muito interessante a ser abordado Maura. Infelizmente os conteúdos que acrescentam e que estao disponíveis para a leitura por aí, sao normalmente os conteúdos que nao sao lidos pela maioria.

beijo
Roberta

Beth Mello disse...

Adorei, um pouco de filosofia sobre o consumisimo por si só...fútil e sem sentido...tá na hora de pararmos pra pensar, refletir sobre esse tema , sobre MODA...estar na moda não significa estarmos sempre consumindo nesse frenético mundo pra sermos aceitas...vale muito a pena pensarmos no bom senso em tudo na nossa vida, mesmo que seja MODA...
Amei!!!
Bjinhosss
Beth Mello
www.bethmello-brecho.blogspot.com

Princesa Bazar disse...

Excelente texto!
O mundo é capitalista, pois gira em torno do dinheiro. Isto é fato.
Porém, devemos ter consciência em relação ao consumismo desenfreado na área da moda que atinje a todas nós mulheres.
Bjus.. Ana
http://princesabazar.blogspot.com/

Vick disse...

Temos que parar para refletir mesmo! Adorei o tema e o texto.

As Senhoritas... disse...

Ótimo texto!
É muito interessante ver este assunto sendo abordado de forma diferente!!!
Mesmo amando o mundo da MODA...Concordo que precisamos parar para refletir, não acreditar em tudo que lemos por aí e não aceitar todas as regras que são impostas!
E principalmente devemos ser consumidoras conscientes!
Bjs!
http://www.senhoritasbazar.blogspot.com/

Coisas de dondoca disse...

Adorooooo filosofar .... Já tinha lido umas coisas sobre o Baudrillard, mas essa máxima de que "consumimos para destruir" , nunca tinha pensado sobre , muito legal...pode continuar postando coisas filosóficas ...rsss...moda faz pensar, sim !! Bjkas

Ambiente Bazar disse...

Temos que parar para refletir mesmo! Adorei o tema e o texto.

Postar um comentário

Dicas: Procurem comentar quando estiverem logadas. Lembrando que as top comentaristas do mes terao seus banners divulgados no blog.

Related Posts with Thumbnails

Minha lista de blogs